segunda-feira, 10 de novembro de 2008

As múltiplas faces do sofrimento. Pe.Fábio de Melo


As múltiplas faces do sofrimento
Nas estradas da vida, o sofrimento é uma passagem
obrigatória.
Causa de muitos dizeres, motivo de muitos motivos,
o sofrimento humano figura nas mais diversas culturas
como um dos assuntos mais recorrentes. Muitos ramos de
conhecimento já se ocuparam dele. Ramos diferenciados,
evidenciando suas inúmeras faces.
O sofrimento é naturalmente interessante. Ele nos
instiga a uma aproximação respeitosa, pois parece condensar
boa parte do significado da vida. Compreender o sofrimento
parece nos oferecer uma chave de leitura para todas
as questões humanas, afinal ele perpassa toda a problemática

Quando o sofrimento bater à sua porta
da existência. Ele é o “lugar” onde reconhecemos nossa humanidade
em sua crueza mais venturosa.
A filosofia, desde sua matriz grega até os dias de hoje, empenhou-
se profundamente em suas tentativas de compreender
o sofrimento e suas causas mais profundas. A teologia sempre
se esmerou em articular a problemática da Revelação de Deus,
centro de suas investigações, com sua busca incansável por respostas
a respeito do sofrimento da condição humana.
A psicologia sempre se mostrou desejosa de fornecer caminhos
que aliviassem o peso de nossas mazelas. O objetivo de
sua pesquisa é favorecer ao humano uma estrutura psíquica um
pouco mais harmoniosa, livrando-o das neuroses e o ajudando
a conviver melhor com os limites que lhes são próprios.
A medicina, enquanto capacitada para dissecar a morfologia
do sofrimento, isto é, o corpo que padece, avançou
territórios interessantíssimos na luta contra a dor. Ela trabalha
com o corpo e sua condição de “matéria temporária”.
O corpo é matéria limitada, isto é, ele é propenso aos
limites e regras do meio em que está localizado. O corpo,
quando exposto ao calor, sofrerá as conseqüências do aquecimento.
Quando exposto ao frio, sofrerá as conseqüências
do resfriamento. Somos vulneráveis, e esta vulnerabilidade
é a porta de muitos sofrimentos.
O corpo é o território da dor. É nele que o sofrimento
e todas as suas faces se concretizam. Quando violentado
por alguma causa, o corpo responde com a dor.

Fábio de Melo
A dor é uma resposta natural do corpo. Ela sinaliza
para o limite que possuímos. É por isso que desde muito
cedo aprendemos a driblar os nossos limites. É simples.
Minimizar os limites é uma tentativa de evitar a dor. Este
aprendizado nós o fizemos a partir de regras práticas do
nosso dia-a-dia. Desde criança ouvimos a frase: “Não põe a
mão no fogo porque queima!”
O imperativo da expressão era uma forma de apontar
os limites que nos são próprios. Não temos uma pele resistente
ao calor das chamas. Possuímos este limite, e com ele
teremos que viver.
A medicina, ao ocupar-se das fragilidades do corpo,
busca encontrar caminhos para superar, ainda que temporariamente,
os poderes de sua finitude. O corpo, por estar sujeito
à regra que postula que “tudo o que é vivo um dia morrerá”,
experimenta constantemente o perigo da interrupção
de sua duração. Este é o objeto da medicina. O corpo é a
matéria da pesquisa, dos avanços e também dos fracassos.
A medicina não pára de buscar caminhos. Nas últimas
décadas, temos acompanhado uma forte campanha
dermatológica, solicitando à população que implante na
rotina de suas vidas o uso do protetor solar. Com o problema
das fendas na camada de ozônio, o aquecimento global
nos legou, além dos muitos que já temos, um novo limite.
Nossa pele não suporta a incidência dos raios que chegam
diretamente até nós. Sem a camada de proteção natural,

Quando o sofrimento bater à sua porta
que foi destruída pelas constantes agressões de nossas sociedades
industrializadas, somos agora obrigados a buscar um
recurso que nos proteja dos raios nocivos do sol.
É a medicina tentando driblar o limite do corpo. É
a tecnologia aplicada à preservação da saúde. É a tentativa
de minimizar os sofrimentos físicos, aqueles que as
radiografias detectam e que os exames revelam. É o corpo
e suas possibilidades de dor. É a carne humana e sua
fragilidade exposta; é o ser vivente e sua luta desesperada
contra a morte.
Mas não temos o desejo de nos ater a estas questões.
O nosso querer é menos pretensioso. Queremos, com
simplicidade, buscar tecer uma reflexão que nos favoreça
um jeito de acolher os sofrimentos que nos afligem, sem
permitir que eles nos destruam ou nos retirem a vontade
de viver.
Para favorecer este nosso desejo e torná-lo possível,
consideraremos o sofrimento a partir da díade: corpo –
alma. Dessa forma, ficará mais seguro continuar o caminho
que desejamos.
Os sofrimentos do corpo são os diretamente ligados
ao contexto da dor localizada, da dor material, física. O
corpo que envelhece, o corpo que padece com os limites
do tempo.
Já os sofrimentos da alma são os que se referem aos
desatinos dos afetos, aos conflitos espirituais, emocionais,
morais, enfim, tudo o que dói na vida humana e que não
tem uma materialidade, isto é, não pode ser radiografado,
nem tampouco identificado em exames laboratoriais.
Quando o nosso sofrimento é localizado e pode ser
curado mediante prescrições de remédios, estamos diante
de problemas para os quais a medicina já encontrou
a solução. Se temos uma enfermidade psíquica, fruto de
desordens químicas que geram tristezas, ou de distúrbios
emocionais, provenientes de nossos distúrbios cerebrais, a
medicina oferece inúmeros caminhos e possibilidades para
sararmos estas questões.
Mas o que podemos fazer quando estamos diante dos
limites que são próprios da vida e para os quais não existem
remédios? Como reagir diante dos acontecimentos trágicos
a que toda pessoa está sujeita? Como é que podemos nos
posicionar diante de tudo o que nos infelicita nestes tempos
tão marcados por inseguranças e violências?
Há algum jeito, alguma forma de fortalecer nossa estrutura
humana para que o sofrimento seja enfrentado sem
que ele se torne a causa de nossa ruína?
É possível administrar os sofrimentos e minimizar
suas ações sobre nós? A dor pode nos ensinar alguma coisa?
Podemos aprender alguma lição com os limites que são
próprios da vida?
É sobre estas questões que queremos refletir.

Autor Pe. Fábio de Melo, livro "Quando o sofrimento bater á sua porta". Capítulo 1

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